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Sr Verner Grinberg e Monte Verde – História

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Verner Grinberg nasceu na Letônia em 1910. Veio para o Brasil com três anos, mas foi a partir do seu casamento com Emília, em 1934, que se encantou pela atual Monte Verde, como conta na entrevista a seguir, concedida antes de sua morte, em 13 de agosto de 2006.

AHPMV – Porque escolheu o Brasil? E porque esta região?
Verner – Foram meus pais que escolheram o Brasil. Eu vim com apenas 3 anos de idade, em 1913. Era uma terra promissora, de clima bom o ano todo, onde tudo o que se planta dá, até duas vezes por ano pode se plantar e colher, ao contrário do norte da Europa. Sabia- se ainda das grandes florestas, com muitas árvores e madeira abundante. Alguns letos já moravam aqui e chegavam notícias muito boas do Brasil na
Letônia. O primeiro lugar onde moramos foi Pariquera-Açu, no vale do Ribeira, estado de São Paulo. Meu pai não gostou de lá. Era muito quente, solo ruim, nada daquilo que sonhávamos. De lá nos mudamos para São José dos Campos, que também já abrigava letos. Logo fomos para Campos do Jordão, que estava começando a se formar. Meu pai já era madeireiro na Letônia e trabalhamos muito em Campos do Jordão, cortando grandes pinheiros (com serras manuais) para a construção de casas, hotéis, inclusive o Hotel Vila Inglesa. Os donos do Vila Inglesa doaram alguns alqueires de terra para o meu pai se estabelecer por lá. Campos do Jordão era uma região que gostávamos muito, mas decidimos sair de lá por questões de saúde. Era um local de tratamento de tuberculosos. Minha mãe faleceu quando eu tinha 7 anos de idade. Saímos sonhando em, algum dia, encontrar um lugar tão bonito, de clima bom, paisagens maravilhosas, mas que fosse saudável para se morar. Já tínhamos ouvido falar que exista um lugar chamado “Campos do Jaguari”, que seria tudo isso. Ninguém sabia informar direito onde ficava. Fomos, desta vez, para o oeste
paulista (região conhecida como “Alta Paulista” – hoje, Tupã, Inúbia Paulista, Bastos, Adamantina…), região de rápido desenvolvimento, à medida que a estrada de ferro avançava. Continuamos a trabalhar como madeireiros, sempre cortando grandes perobas, serrando em tábuas, vigas, para construção de casas de madeira, muito comuns naquela região. Em 1922, chegou à região em que morávamos um grande grupo de letos. Eram 2.000 pessoas, que formaram primeiro a colônia Palma, depois Varpa, Pitangueira e Colônia Letônia. Também montamos uma pequena serraria
lá, para ajudar os conterrâneos. Neste grupo, conheci uma moça, chamada Emília Grinberg, com quem me casei mais tarde, em 1934. Nesta época, ela cantava no coro da Igreja Batista de Varpa, onde era soprano solista. Emília tem sido minha grande companheira ao longo da vida. Já são 72 anos de casamento. Sempre trabalhamos muito com nossas serrarias, fornecendo madeira para as cidades que iam se formando na região e, mais tarde, semanalmente mandando vagões inteiros carregados de peroba serrada para São Paulo. A Emília, muitas vezes, cuidava da casa e da serraria,
quando eu viajava para vender madeira. Depois de muito tempo, um leto chegou até nós dizendo que, em suas andanças, tinha conhecido o tal lugar chamado Campos do Jaguari, onde ficam as nascentes do rio Jaguari e tivemos grande curiosidade em conhecer. Um dia, meu pai e eu saímos do oeste de São Paulo para vir conhecer a região, iniciando nossa viagem de trem e terminando à cavalo, já que não havia estradas a menos de 10 km de Monte Verde.


AHPMV – Como era a região? Vegetação, população, temperatura?
Verner – Quando chegamos aqui, era só uma fazenda habitada por alguns mineiros. Havia talvez umas três ou quatro famílias que moravam aqui, trabalhadores da fazenda, além dos proprietários. O lugar era mesmo muito bonito, como o que havíamos sonhado. Nós dois andamos por toda a fazenda e subimos até o Pico do
Selado. Conversamos com as poucas pessoas que moravam na região, mas não encontramos ninguém que quisesse vender nenhum pedaço de terra. Quando já
íamos indo embora a cavalo, um homem nos alcançou e perguntou se seria verdade que queríamos comprar terras por aqui, e se pagaríamos mesmo o que tinha ouvido
falar (alguns contos de réis). Eu disse que sim, se alguém quisesse vender. Ele disse que era dono de 5 alqueires e venderia. Fomos então até Camanducaia para passar
a escritura. Naquela época se andava com dinheiro no bolso. Nem banco ou cheque se usava… Voltamos, talvez um mês depois, acho que era 1938, para tomar posse da
área adquirida e demarcá-la (hoje, a área onde se encontra a Igreja Batista, o Bradesco, etc.) e onde ainda tenho a minha praça particular. Nesta segunda viagem, trouxe um grupo maior: eu, Emília, a irmã dela, Ilga, meu pai e meu tio, Karlis Kempis, num total de 5 pessoas. Montamos nosso acampamento, em barraca de lona, dividida em 2 quartos (com um lençol pendurado no meio). As mulheres dormiam de um lado, os homens do outro. Emília e Ilga cozinhavam para todos. A nossa cozinha nada mais era que uma fogueira, embaixo de uma araucária. Monte Verde era uma área de florestas de pinheiros (araucárias) intercalada de campos naturais e pastagens (caso da área do aeroporto, da região da Rua Pinheiro Velho e outras), córregos muito limpos de água gelada. Mais tarde, fomos comprando outras áreas maiores, formando a área que hoje é Monte Verde. Karlis Kempis, meu tio, pai do (Karlis) Raymondo Kempis, meu primo, também comprou uma área, onde construiu sua casa e loteou mais tarde (Parque das Araucárias, Parque Monte Sol). Como comprei as terras que deram origem a Monte Verde de vários proprietários (num total de 400 alqueires), fui algumas vezes a Camanducaia para fazermos as escrituras. Lá, ouvi gente dando  risada de mim, diziam que eu era um inglês louco‚ quem compra terras “lá”, deve comprar até casca de ovo.


AHPMV – Em que o senhor trabalhava quando chegou em Monte Verde?
Verner – Sempre fui madeireiro. Foi com nossas serrarias que juntamos dinheiro para comprar as terras que hoje são Monte Verde. Comprei meu primeiro avião ainda
quando morava em Inúbia Paulista. Tirei o brevê no aeroclube de Rancharia, São Paulo, em 1942. Meu primeiro avião voava a 80 Km por hora. Eram mais de 6 horas de voo de Inúbia Paulista até São Paulo. Em Monte Verde, antes de conseguir construir a pista do aeroporto, pousei algumas vezes no pasto, mesmo.


AHPMV – Quem escolheu o nome Monte Verde?
Verner – Foi ideia minha e da Emília. Foi fácil relacionar o nome “Grinberg” (em leto, apenas um sobrenome), em alemão “Grün Berg”, traduzido para português, Monte
Verde, com as características naturais da região. Verner Grinberg nasceu na Letônia em 1910. Veio para o Brasil com três anos, mas foi a partir do seu casamento com Emília, em 1934, que se encantou pela atual Monte Verde, como conta na entrevista a seguir, concedida antes de sua morte, em 13 de agosto de 2006

AHPMV – Como era a viagem para chegar em Monte Verde?
Verner – Bem, a gente vinha de trem de São Paulo até Vargem, e seguia de jardineira até Joanópolis ou Extrema. Depois, estradinhas de terra (não me lembro exatamente
quais) para chegar até o “Sítio da Cachoeirinha”. Por fim, as estreitas trilhas – cerca de 10 km – que só podiam ser vencidas a cavalo. Era uma aventura. Anos mais tarde,
conseguimos que a prefeitura ajudasse com parte das despesas a abertura da “estrada velha”. O resto, eu tive que pôr do próprio bolso.


AHPMV – Como iniciou seus trabalhos em Monte Verde?
Verner – Foi com muita, muita luta. Chegar no meio do quase nada… Na primeira vez, quando viemos tomar posse dos primeiros 5 alqueires adquiridos, dormimos
em barraca de lona eu, meu pai e meu primo cortávamos árvores para termos madeira para fazer uma primeira casa-sede. Deixamos a madeira pronta, e encomendamos
a construção desta casa (próxima à atual casa do Adolfo Melo) para um dos mineiros que já moravam aqui. Depois é que construímos a nossa primeira casa de alvenaria
em Monte Verde, quando nos mudamos definitivamente de Inúbia Paulista, em 1952. É a casa onde hoje moram os donos da Lanelli Malhas (Neusa e Lico).

Essa oi, oficialmente, nossa primeira casa aqui. Anos mais tarde, em 1956, fundamos a Igreja Batista, já que vários dos primeiros moradores de Monte Verde eram batistas,
a maioria deles letos. Depois, vimos que as crianças precisavam de escola. Fomos até o Rio de Janeiro, onde contratamos a professora Cidália para dar aulas em Monte Verde. Começou com as crianças da igreja e logo em seguida, eu mesmo tinha que ir de casa em casa, convencer os pais e as crianças que precisavam ir para
a escola. Eu dizia para as crianças que, se algum dia quisessem dirigir um caminhão como o meu, teriam que ir a para a escola, aprender a ler e escrever, ter carteira
de motorista… Também tive que pagar do próprio bolso a rede de eletricidade. Nos primeiros anos, tínhamos um locomóvel (máquina a vapor) que fazia o gerador de
eletricidade funcionar. Durante o dia, o locomóvel fazia a serraria funcionar e, quando escurecia, ele tocava o gerador, até mais ou menos 10 horas da noite, quando
fazíamos a luz piscar três vezes, avisando que o gerador iria parar. Uns 10 minutos depois, tudo ficava escuro. Hoje, a Bragantina fornece luz de dia e de noite. Tivemos
também que fazer captação de água nas nascentes da serra e distribuição de água para as casas. Foram vários quilômetros de canos enterrados. Talvez uns 40 km e ainda as caixas d’água que tive que construir. Na maioria das vezes, as pessoas nem pagavam nada pela água, mas nunca cortei o fornecimento de ninguém. Anos mais tarde, doei tudo para a Copasa. Tivemos que montar uma olaria também, além da pedreira, construtora, fazer abertura e manutenção de ruas, colocar “conservas” na estrada, desencalhar carros… Foi muito trabalho.

AHPMV – Como o senhor percebeu que o negócio estava caminhando na direção adequada?V
Verner – Pessoas (amigos, parentes) vinham até aqui, gostavam, falavam para outros que também queriam vir, estes voltavam e traziam outros… Logo tinha gente querendo comprar pedaços grandes de terra (chácaras e sítios). No início até cheguei a vender (e mesmo a doar) uns poucos pedaços, mas depois resolvi que não venderia mais áreas tão grandes, e resolvi vender lotes. O primeiro lote urbano foi vendido em julho de 1954. Foi aí que Monte Verde começou de verdade, foi deixando de ser uma fazenda e se tornando uma cidade.


AHPMV – Como era o clima? Qual a menor temperatura que já presenciou?
Verner – O clima era como é hoje. Só parece que fazia mais frio. Desde que estou aqui vi nevar em Monte Verde duas vezes. A temperatura mais baixa que presenciei aqui foi 14 graus negativos, na década de 60.

AHPMV – Como se sente ao ver Monte Verde grande e desenvolvida?
Verner – Muito feliz e realizado.

AHPMV – Como teve a brilhante ideia de incentivar o turismo nesta época? Como vê o turismo em Monte Verde hoje?
Verner – No começo eu cheguei a ir buscar gente em São Paulo, em Vargem (onde a linha de trem chegava. Hoje eles já vêm sozinhos. Era uma viagem longa, difícil.
Às vezes encalhava na estrada. Já dormimos na estrada. Quando nada acontecia, eram 8 a 9 horas de São Paulo até Monte Verde. Não existia nem a Fernão Dias. Até poucos anos atrás, tínhamos que ir para a estrada desencalhar carros, ajudar os turistas atravessarem os atoleiros, ou pelo menos mandar algum empregado ir. Senão ninguém iria querer voltar…

AHPMV – E sobre os hotéis?
Verner – O hotel Cabeça de Boi foi o início. Não era um hotel grande, mas era mais luxuoso que os que já existiam e foi crescendo ao longo dos anos, através de muito trabalho e esforço. Sei que eles trabalharam muito também. É só assim que as coisas crescem da maneira correta. Muito trabalho e esforço.

AHPMV – O que espera para o futuro de Monte Verde?
Verner – Espero que deixem Monte Verde continuar crescendo, se tornar um destino cada vez melhor, mais estruturado, que muita gente possa vir aqui e ver esta  maravilha toda que Deus criou. Espero que um dia Monte Verde seja município, que tenhamos políticos honestos e trabalhadores dirigindo Monte Verde.

AHPMV – O senhor esperava que Monte Verde se transformasse no que é hoje?
Verner – De um lado, sim. É o que sonhamos. Uma cidade de clima bom e saudável, cheia de turistas, paisagens bonitas. Por outro lado, antigamente não dava nem para imaginar que um dia todo mundo teria tantos carros. Se soubesse que seria assim, teria feito a avenida mais larga, mas tinha também a esposa do Sr. Lukas (eles eram donos de uma das chácaras que vendi logo no início – próximo do “Restaurante Redondo”), que não queria que eu alargasse a rua, na verdade uma trilha, que passava pelo terreno deles. Foi difícil conseguir fazer a Avenida (Monte Verde) ser da largura que é hoje, mas deveria ser mais larga ainda…

AHPMV – O senhor se sente orgulhoso por ter feito uma
cidade?
Verner – Me sinto feliz e abençoado. Eu não posso dizer que fiz uma cidade. Pelo menos não sozinho. Costumo dizer que, dos 100% que foram feitos, eu fiz só 40% e a minha mulher fez os outros 60%. Ela nunca reclamou de morar no mato. Tantas mulheres só querem hoje, como queriam antigamente, viver na facilidade das cidades. Ela nunca se importou em trabalhar duro, nunca reclamou de ter que cuidar de fazenda, do gado, de tirar leite das vacas, carregar latões de leite, fazer queijo, manteiga, pães, ter que ir fazer compras em Bragança de jipe, uma viagem de 5
horas de ida, 5 horas de volta, saindo de madrugada e voltando já de noite. Fora isso, tem muitas outras pessoas que ajudaram, trabalharam duro também e, acima de nós todos, tem Deus que fez tudo, deu saúde, forças e proteção. Sem Deus acima de tudo,
não se faz nada duradouro na vida.

AHPMV – Como o senhor vê Monte Verde hoje?
Verner – É uma cidade bonita, cheia de gente, carros para todo o lado, saindo nos jornais e televisão. Monte Verde tem muito futuro pela frente.

AHPMV – O senhor faria tudo de novo?
Verner – Sim, faria tudo de novo se pudesse, corrigindo alguns erros que só a experiência pode mostrar.

AHPMV – O que o senhor sugere para que Monte Verde melhore ainda mais?
Verner – Precisamos muito da estrada asfaltada e bem cuidada. Não dá mais para esperar que bons turistas venham com seus carros cada vez melhores e mais modernos sacolejando por uma estrada tão precária. Hoje Monte Verde já tem muitas coisas: lojas, comércio, hotéis grandes e luxuosos, escolas boas, igrejas, banco. Monte Verde já é uma cidade e precisa continuar melhorando, crescendo. Não dá para parar. Parar é andar para trás.

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